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10 Setembro 14
Lembra quando você dizia que o amor mais bonito era aquele que só existia no silêncio, em um olhar ou no escuro? Agora eu entendo. Tenho te amado assim, desde então. No escuro.
3 Setembro 14
- Por que você não escreve uma música pra mim?
- Não sei escrever sobre o que me deixa feliz.
4 Janeiro 14

adeus

estou há muito tempo acreditando nisso sozinho, ou talvez achando que acredito. é tudo muito confuso quando você se acostuma com uma rotina tão boa, tão sutil e ela de repente se esvai dentre seus dedos, como água corrente.

mas, também pudera, eu que escolhi as coisas dessa forma. eu fui avisado, diversas vezes, que isso não poderia dar certo, e não daria. eu sabia que não teria chances e que o esforço não viria, em nenhum momento, da sua parte para que ao menos uma tentativa tivéssemos, ao menos uma chance de, juntos, fazer isso dar certo.

então, eu me desculpo. peço desculpas por ainda te chamar de amor, ainda pensar assim. mas faço isso porque ainda não segui em frente, ainda não subi o degrau onde a venda que permanece em meus olhos irá desaparecer permitindo que eu volte a ver a realidade.

me desculpo pelo ciúme sentido, mesmo que sem motivo. porque, convenhamos, não há nexo nenhum eu sentir ciúme de algo que nunca existiu. mas é tão difícil ver as coisas acontecendo e a única coisa sensata que eu poderia fazer é sentar no meu banquinho no canto da sala e observar, de longe, o filme todo passando em minha frente e chorar com o final feliz do qual não faço parte.

agora vá, voe. minhas mãos não te segurarão mais, nem meu coração. há muito tempo você disse o ‘adeus’, e agora chegou minha vez.

adeus.

8 Julho 13
Sabe o que mais me dói nessa vida? Não é a dor física, em si, nem muito menos a falta, ou a distância, o futuro, o passado, e tão pouco a morte. O que mais me afeta e me paralisa é o medo. Sim, essa palavrinha, esse sentimento que muitos dizem ser bom em muitos casos, e que também devemos enfrentá-lo. Pena que não é assim tão fácil. Antes de conhecer o amor, digo, o verdadeiro amor que faz meu sangue correr mais rápido, que torna minhas bochechas mais coradas, meu coração uma bateria de escola de samba, meus olhos brilhantes e minha mente focada. Antes disso tudo eu tinha medo de coisas banais, medos cotidianos. Hoje as coisas se tornaram tão diferentes que não tenho mais esses medos. Agora tenho medo de acontecimentos. Assim que eu conheci o amor, desenvolvi o medo de perder. Aquilo me tornava cada dia mais aflito. Mas de nada adiantou esse medo, eu perdi e não pude evitar. Depois disso, desencadeou-se o medo de estar presente demais, de fazer demais pelo outro. Me tornei ausente, e com medo de perder. Passadas as duas situações, veio de dentro o pior de todos os medos, o de deixar acontecer. Sim, medo que as coisas comecem. Tenho medo de permitir algo, porque depois terei medo de estar presente e, enfim, voltará o medo de perder. Mas, como se não bastasse, a vida me deu mais um medo: o de ficar sozinho. Medo de no futuro não encontrar ninguém, aliás, medo de todos esses meus medos me frustrarem vez após vez e eu permanecer sozinho até meus últimos dias. Não quero viver uma vida onde eu não possa sorrir ao acordar e olhar pro lado da cama e encontrar o rosto daquela pessoa que deitará comigo no fim do dia; não quero viver num mundo onde as compras de mercado sejam feitas apenas por mim, com apenas as minhas coisas e sem discussões pelos preços dos produtos; não suportaria a ideia de não ter outras opiniões na decoração do apartamento, nem de não ter com quem dividir as tarefas domésticas e de não ter uma risada dia após dia que me faça tão bem. Eu não viveria sem alguém para dizer eu te amo a cada fim de ligação, a cada sms espontânea, a cada comemoração de aniversário de casamento/namoro e nem muito menos a cada demonstração de afeto. É tão estranho tudo isso, eu realmente não sei o que fazer, nem o que pensar. Eu tenho medos, medo de ter medos, e medo de novos medos. 

Sabe o que mais me dói nessa vida? Não é a dor física, em si, nem muito menos a falta, ou a distância, o futuro, o passado, e tão pouco a morte. O que mais me afeta e me paralisa é o medo. Sim, essa palavrinha, esse sentimento que muitos dizem ser bom em muitos casos, e que também devemos enfrentá-lo. Pena que não é assim tão fácil. Antes de conhecer o amor, digo, o verdadeiro amor que faz meu sangue correr mais rápido, que torna minhas bochechas mais coradas, meu coração uma bateria de escola de samba, meus olhos brilhantes e minha mente focada. Antes disso tudo eu tinha medo de coisas banais, medos cotidianos. Hoje as coisas se tornaram tão diferentes que não tenho mais esses medos. Agora tenho medo de acontecimentos. Assim que eu conheci o amor, desenvolvi o medo de perder. Aquilo me tornava cada dia mais aflito. Mas de nada adiantou esse medo, eu perdi e não pude evitar. Depois disso, desencadeou-se o medo de estar presente demais, de fazer demais pelo outro. Me tornei ausente, e com medo de perder. Passadas as duas situações, veio de dentro o pior de todos os medos, o de deixar acontecer. Sim, medo que as coisas comecem. Tenho medo de permitir algo, porque depois terei medo de estar presente e, enfim, voltará o medo de perder. Mas, como se não bastasse, a vida me deu mais um medo: o de ficar sozinho. Medo de no futuro não encontrar ninguém, aliás, medo de todos esses meus medos me frustrarem vez após vez e eu permanecer sozinho até meus últimos dias. Não quero viver uma vida onde eu não possa sorrir ao acordar e olhar pro lado da cama e encontrar o rosto daquela pessoa que deitará comigo no fim do dia; não quero viver num mundo onde as compras de mercado sejam feitas apenas por mim, com apenas as minhas coisas e sem discussões pelos preços dos produtos; não suportaria a ideia de não ter outras opiniões na decoração do apartamento, nem de não ter com quem dividir as tarefas domésticas e de não ter uma risada dia após dia que me faça tão bem. Eu não viveria sem alguém para dizer eu te amo a cada fim de ligação, a cada sms espontânea, a cada comemoração de aniversário de casamento/namoro e nem muito menos a cada demonstração de afeto. É tão estranho tudo isso, eu realmente não sei o que fazer, nem o que pensar. Eu tenho medos, medo de ter medos, e medo de novos medos. 

6 Julho 13

quanto tempo o tempo tem?

Tenho um dragão que mora comigo.

Não, isso não é verdade.

Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço - seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.

Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar - que seja doce.

Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava - digamos - adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinhos banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quanto você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira.

Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, na tarde ou na noite seguintes, quanto ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.

Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar - você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quando perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: “Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível”.

Ele cheirava a hortelã e alecrim. Eu acreditava na sua existência por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou a cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia - nunca foi esse o cheiro dos dragões.

A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas de índio que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê sonhava com dragões, unicórnios ou salamandras, esse era um jeito do seu mundo ir se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas quanto deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões - coisa que só os mundos muito largos conseguem.

Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril - esse é o mês dos dragões - dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.

Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca - amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.

Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber porque, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que os espaços ficassem mais bonito.

Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores - acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.

Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Pergunte o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quanto sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.

Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ira ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.

Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.

Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias - você compreende?

Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim - hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.

Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades - que não aconteciam, mas que importa? - a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.

Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto - porque não estou certo - coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?

Não, não é assim. Isso não é verdade.

Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto - pelo avesso igual ao direito - incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos - como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.

Quando volto apensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo - tão banal e sedento - a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de ser feliz.

18 Maio 13

Levanto normalmente 7h30, me arrumo e vou para o trabalho. Um lugar legal, com pessoas legais e onde posso fazer o que gosto e me dedicar. Passo o dia lá, e depois vou para a faculdade. Faço o curso que eu quero, numa instituição que tem um ótimo conceito no meu curso e nem pago por isso. Saio de lá e vou para casa, preparo meu jantar, faço meus trabalhos e durmo. Nos finais de semana posso trabalhar com algo que tenho como hobbie, ver meus amigos e me divertir. Tenho praticamente tudo o que eu quero, moro sozinho, ganho razoavelmente bem e, contudo isso, ainda sinto que falta algo. Tenho ótimos amigos, uma família incrível, chefes e colegas de trabalho ótimos também. Os relacionamentos não deram muito certo, mas deles sempre me restaram a amizade. Então paro e penso: o que pode estar errado? Eu estou fazendo algo errado? A culpa é minha, ou deles? Nunca tive nenhuma resposta. Mas, levo em consideração muita coisa dita e, ao que me parece, eu não sou suficiente. É, isso mesmo. Posso ter mil e uma qualidades que já me disseram, mil e um defeitos que também disseram, mas não sou suficiente. É como se eu tivesse tudo, e não tivesse nada. Sinto como se cada vez que eu começo algo, já sei que é questão de tempo para que acabe, ou acabe mesmo antes de começar. Não é nada bom esse sentimento. Me sinto um idiota. Nem esperanças eu tenho mais, e isso destrói, de dentro pra fora. Eu só queria uma chance.

18 Fevereiro 13

aquela sensação estranha. do ter e não ter, ao mesmo tempo. do estar e não estar, do querer e não querer. do desejar e do temer. da esperança e do cansaço. do amar e não ter dúvidas. é isso, tudo isso que você me causa. pena que a distância faça tudo isso ter uma proporção menor do que seria com você aqui, comigo.

Themed by Hunson. Originally by Josh